Poliana Tuchia Me apavora a ideia de esquecer

ME APAVORA A IDEIA DE ESQUECER

Poliana Tuchia

“Esta é uma sinopse na primeira pessoa. Eu sei que não é comum, mas me arrisco porque esta é uma investigação arriscada. A tragédia é arriscada. O humor é arriscado. Quando a tragédia é muito trágica fica ainda mais arriscada se não houver humor. Em 1999, numa manhã a caminho da escola, a minha madrinha me disse: – “Antes que alguém te conte eu vou te contar, a sua avó matou o seu avô.” Não sei se foi exatamente assim, porque agora sou eu lembrando, e a memória não é um encadeamento lógico e perfeito. Esta investigação é sobre isto também. Sobre como o olho vê, a memória revê e a imaginação “transvê”. Mas nada disto é fruto da minha imaginação. Eu vivia com a minha avó, e me lembro de sentir que ali naquele dia não cabiam perguntas, respostas, detalhes. Nem naquele dia, nem nos próximos anos, nem nesta vida. Mas eu não queria levar isso para as próximas vidas. Uma vez me disseram que a desgraça deve ser descrita na sua real dimensão. Eu concordo.” [Poliana Tuchia]

Durante a residência acontece a sessão pública “F(ATOS) e F(R)ICÇÕES, um espaço de diálogo para iluminar as lacunas, discuti-las, desdobrá-las, dissolvê-las e reestruturá-las.

Me apavora a ideia de esquecer” é a abertura de um processo criativo que investiga as correlações paradigmáticas entre o livro prático “A Enciclopédia da Mulher no Lar” de Maria Antonieta de Morais (1972) e documentos pessoais familiares. A descoberta de factos biográficos que revelam um assassinato, distorcem o que é tido como verdadeiro sobre a categoria “mulher” proposta pelo livro, um manual prático de boas condutas para mulheres. Os “ensinamentos” sobre como “ser mulher”, “ser feminina” ganham contornos trágicos na vida de uma família ”enciclopédica”. Há uma reação extrema e radical. A regra geral faz uma curva incomum. Não é a mulher quem morre pelas mãos do seu agressor. ELA mata-o. Nesta residência, Poliana Tuchia mergulha tanto no quotidiano da MULHER ENCICLOPÉDICA – obediente, resignada e silenciosa – quanto em documentos e memórias familiares que narram o acontecimento, para construir objetos artísticos em formatos diversos, ou simplesmente “fora de formato”: escrita corporal-textual, imagética, autoral e tragicómica.

Criação e Interpretação POLIANA TUCHIA
Acompanhamento e Consultoria Dramatúrgica MATILDE REAL
Consultoria da Linguagem de Comicidade SUSANA CECÍLIO
Artistas Convidadas ELISA ROSSIN E PEPA MACUA
Produção e Gestão Financeira CATARINA SOBRAL
Ilustração CLARICE PANADÉS
Registo e Edição Audiovisual BETH FREITAS
Historiadoras Convidadas DULCE FREIRE E RAQUEL LANDEIRA
Apoios MENTE DE CÃO, A ALGURES, GRUPO EUFÉMIAS, MONTE DO PALMINHA, TEM GRAÇA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE MULHERES PALHAÇAS
Apoio à Residência CENTRO CULTURAL DA MALAPOSTA / MINUTOS REDONDOS / CÂMARA MUNICIPAL DE ODIVELAS

Projeto financiado pela República Portuguesa – Cultura, DGARTES – Direção-Geral das Artes

POLIANA TUCHIA é brasileira, residente em Portugal desde 2O19. Palhaça, percussionista e gestora cultural, projeta na sua pesquisa artística a transversalidade de linguagens e o cooperativismo em rede, buscando visibilizar discussões acerca das questões de género e sexualidade. É cofundadora da MALTA – Mulheres da América Latina Pelo Tambor, uma rede que mapeia mulheres que tocam tambores e promove o protagonismo feminino na música percussiva, na América Latina. É cofundadora da Divinas Tetas, uma plataforma de criação interessada na construção de novas dramaturgias cómicas que valorizem o protagonismo feminino e LGBTQIAP+ dentro do universo circense e teatral. Em Portugal fundou, com outras cinco artistas, o grupo EUFÉMIAS e o Festival Eufémia, que busca fomentar a reflexão crítica sobre o universo das mulheres, a construção de identidades e as questões de género nas artes performativas. Nos últimos dois anos colaborou na curadoria do TEM GRAÇA – Festival Internacional de Mulheres Palhaças, sendo também assistente de direção e coordenadora de comunicação do Festival. Desde 2O21 é parceira d’A Algures, estrutura de criação, programação e mediação de públicos, com quem mantém vínculos artísticos, participando como atriz, palhaça e música nas criações “A_Massa” (2O23), “O Tempero” (2O22) e “Contar às Abelhas” (2O21). Atualmente integra a Pulsar – Companhia do Corpo e é Palhaça na Instituição Operação Nariz Vermelho.

MATILDE REAL cria e colabora em espetáculos de arte participativa, como intérprete e na área da palavra. Estudou Artes do Espectáculo na Universidade de Lisboa e Teatro Aplicado na Universidade de Goldsmiths, Reino Unido. Fez projetos em centros de refugiados, escolas, aldeias, prisões, estufas de agricultura intensiva. De momento atua em zonas rurais do Alentejo e do Algarve e aventura-se pelos campos da escrita e da dramaturgia. Colabora com a Cooperativa Cultural Lavrar o Mar, na equipa nuclear do projeto BOWING. Em 2O22 escreveu a peça de teatro “O Tempero” com a companhia A Algures. Em 2O23 escreveu “As Mulheres de Shakespeare”, em colaboração com Fátima Vieira, peça que será apresentada no Teatro Nacional São João com a encenação de Carlos Pimenta.

SUSANA CECÍLIO licenciou-se em Motricidade Humana e é mestre em Estudos de Teatro (Faculdade de Letras-UL) com a tese “Dramaturgia do Corpo” (2OO9). É atriz, clown e narradora, difundindo a língua portuguesa em diversos contextos, como bibliotecas, escolas e festivais, nacionais e internacionais. Fundou e dirigiu o Espaço Evoé, escola de teatro, dança e música de Lisboa, durante nove anos. Deu aulas de Corpo e Movimento, Corporeidade, Criação do Espetáculo, no ensino artístico e superior. Estudou com o LUME (BR), Odin Teatret, Tadashi Endo (Butoh), Sue Morrison, Pepe Nuñes, Celia Ruiz, Ricardo Puccetti, Eric de Bont, Encarna de las Heras, Maurice Willems, Piero Partigianoni, Moshe Cohen, Jimena Cavalletti (clown), Mas Soegeng, Nuno Pinto Custódio e Sofia Cabrita (máscara), Miguel Moreira, Renato Ferracini, Peter Michael Dietz. Trabalhou com O Bando, A Boa Companhia (BR), o LUME (BR), Rui M. Silva, Pedro Gil e Gonçalo Amorim. É criadora dos espetáculos de teatro narrativos “Contar às abelhas” (2O21), “O nosso último espetáculo” (2O2O), “O Assalto” (2O18), “Bem Vindos à minha sala de Estar” (2O17), “Up-Smara” (2O14); espetáculos de clown “Com amor, papel manteiga e marcador” (2O13) e “Ilusa Ilusión” (com Dani Olmos, 2O12); e dos espetáculos de teatro “Chuva Pasmada” (2OO9). Cocriou os espetáculos “Levantei-me do Chão” (2O15), “O fio do azeite” (2O19) e “Como Assim Levantados do Chão” (Miguel Castro Caldas, 2O14), apoiados pela DGArtes. É fundadora e diretora artística da ALGURES – teatro, clown e narração. Atualmente é diretora artística do TEM GRAÇA – Festival Internacional de Mulheres Palhaças e integrante da União de Palhaças em Portugal – UPP. A costura dramatúrgica dos elementos plásticos, literários e corporais na criação artística é um dos lugares que mais a fascina.

ELISA ROSSIN é encenadora, atriz, figurinista e diretora de arte. Doutora em Artes Cênicas pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. É integrante da Cia. do Quintal (São Paulo-Brasil) desde 2O12. Ministra cursos de interpretação com máscaras na Escola do Quintal e na Escola de Palhaças. Realizou estágios artísticos com a companhia teatral alemã Familie Flöz, em Berlim-Alemanha. Participou do seminário internacional de criação de máscara Arte dela Maschera, no Centro Maschere e Strutture Gestuali-Museo dela Maschera, em Albano Terme-Itália, com Donato Sartori. Ministrou o curso “Corpo-Máscara” no Programa de Pós-graduação Latu sensu de Direção e Atuação da Escola Superior de Artes Célia Helena-São Paulo (2O14-2O16). Em 2O19 ministrou curso “O jogo das máscaras silenciosas”, na Operação Nariz Vermelho em Lisboa e Porto, Portugal. Em 2O2O ganhou o prémio Itaú Arte como Respiro: Múltiplos Editais de Emergência – Artes Cênicas com a obra “Quarentena Mascarada”. Foi selecionada para o Projeto Vídeo Drama, da Cia2222. Proponente, diretora cénica e atriz da curta-metragem “Despedida-itinerários do vento”, contemplado pelo ProAC Expresso LAB 36/2O2O e Irrealidades Mascaradas, Prémio Aldir Blanc Maria Alice Vergueiro. Responsável pela criação e conceção visual da obra audiovisual “Manu – A menina que ouvia borboletas”. Criou os figurinos de “Gabinete das Curiosidades”, da Cia Tu Madeixa de Marionetes. Em 2O22 dirigiu o espetáculo “Entre Mundos”, contemplado com o Prêmio ProaC de incentivo à cultura no Estado de São Paulo. Ministrou o Workshop Corpo-Máscara no Festival Internacional de Palhaçaria Feminina TEM GRAÇA, em Lisboa. Dirigiu o espetáculo infantil “Onde está minha mãe” (Lisboa). Em 2O23 foi selecionada para a Residência Artística Art&Craft Refúgio-Lisboa. Representou o Brasil na Quadrienal de Praga 2O23, na Mostra Fragmentos II.

PEPA MACUA é atriz e acrobata argentina, completou a escola de Novo Circo, LA ARENA, no Centro de Artes Circenses da Cidade de Santa Fé (Argentina). Fez especialização em pinos com Sasha Mokrouchine (Rússia), Hector Carrozo (Argentina), Jesus Hernán Améstica (Argentina) e Percy David Cordoba (Peru). Formou-se e trabalha em Teatro com Ana Woolf, atriz, pedagoga e encenadora do Odin Teatret (Dinamarca). Criou diversas peças, destaca o prémio de Criação Coreográfica, com “QUIASMAS” (2O14). Em 2O16, é artista residente na Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro, Brasil. Em Portugal desde 2O18, colaborou como criadora no dISPAr Teatro, no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e atualmente trabalha como professora e encenadora na Associação GIRA (Grupo de Intervenção e Reabilitação Activa para pessoas com experiências de doenças mentais graves); colaborou em encenação na Escola de Circo Chapitô; participa como atriz no Teatro Laboratório do projeto Casa ÁRVORE (Raíz Teatro); na peça “O Despertar dos Pássaros”, encenada por Carlos Nicolau Antunes e trabalha com a Companhia da Esquina, encenada por Jorge Ribeiro. Cofundadora da Companhia Mente de Cão e cocriadora da peça “A gravidade de um Pássaro” (com Joana Pupo, Ana Woolf e Catarina Sobral). Atualmente, está a desenvolver uma peça que cruza circo contemporâneo e divulgação científica, “Ensaio para a desordem”. É cofundadora do grupo Eufémias e cocriadora do Festival Eufémia.

CLARICE PANADÉS é artista visual e circense há mais de 2O anos. Formada em desenho pela Escola de Belas Artes da UFMG 2O2O, na Spasso Escola Popular de Circo em 2OO8, e integrante do Coletivo Na Esquina. O desenho surge como um vestígio do movimento no mundo, no desejo de revelar o invisível do gesto. Não importa a técnica a ser utilizada – vídeo, caneta, tinta, palavra escrita – mas o modo como a tradução do acontecimento acrescenta algo ao instante.

BETH FREITAS é brasileira, nascida em 1982, formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade FUMEC – Fundação Mineira de Educação e Cultura e Pós-Graduação em Gestão Estratégica da Comunicação pelo IEC – Instituto de Educação Continuada/Puc Minas. A partir de 2O14 dedicou-se a cursos, palestras e workshops de fotografia, trabalhando desde então como fotógrafa de eventos culturais, festivais, músicos, bandas, teatro, projetos sociais, além do trabalho autoral e artístico. Realizou exposições em Belo Horizonte e diversas publicações impressas e digitais. Na área do audiovisual participou na gravação de videoclipes, espetáculos, gravações de DVDs ao vivo, produção de mini doumentários (acompanhando o processo artístico dos músicos), campanhas de financiamento coletivo, gravação de programas na Rádio Inconfidência como: A Hora do Improviso do músico mineiro: Thiago Delegado e gravação de programas do projeto Almanaque do Samba. Além de projetos sociais: Circuito Gastronômico de Favelas e oficinas oferecidas na Comunidade Alto Vera Cruz/Belo Horizonte – MG. Desde 2O21 vive em Portugal e trabalha com projetos audiovisuais no setor cultural, teatro e música, como o Festival Eufémia e o Tem Graça – Festival Internacional de Mulheres Palhaças.

CATARINA SOBRAL é produtora e gestora cultural, residente em Coimbra. Formada pelo Curso de Produção/Gestão das Artes do Espetáculo, no Forum Dança (2O17), frequenta o Mestrado em Estudos e Gestão da Cultura no ISCTE-IUL, encontrando-se a desenvolver a dissertação final com o tema “Acessibilidade nos Teatros em Portugal”. Licenciada em Estudos Artísticos – Artes do Espectáculo, pela FLUL (2O16). Concluiu o 2º ano do Curso de Formação de Actores, na Evoé – Escola de Actores (2O14). Colaborou com os programadores Madalena Victorino, Giacomo Scalisi e Miguel Abreu, em projetos ligados às artes performativas e comunidades, entre eles o Festival Todos – Caminhada de Culturas, o Teatro das Compras e o Lavrar o Mar. Com a Evoé – Escola de Actores colaborou entre 2O14 e 2O19, no seu projeto de formação artística e na área de produção cultural e com o Forum Dança entre 2O2O e 2O21. Em 2O2O, é cofundadora da Associação Mente de Cão, na qual produziu “A Gravidade de Um Pássaro” (2O21), “Todas as Coisas Extraordinárias” (2O22) e “Ensaio para a Desordem” (2O23). Faz parte do Grupo Eufémias, com o qual produz o Festival Eufémia, que promove a reflexão critica sobre perspetivas de género e identidades.


©Fotografia BETH FREITAS

RESIDÊNCIA

2O24 | JAN 23 a FEV O4

BLACK BOX

RESIDÊNCIA ABERTA

FEV – O4

DOM – 15HOO

ENTRADA LIVRE [MEDIANTE LEVANTAMENTO DE BILHETE E SUJEITA À LOTAÇÃO DA SALA]

9O MINUTOS

A CLASSIFICAR PELA CCE

[PERFORMANCE]

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