O DEVER DE DESLUMBRAR

O DEVER DE DESLUMBRAR

Teatro do Vão

Intimidando pela verve e pela beleza, Natália Correia simbolizou as inquietações do século XX português. Para celebrar o centenário do seu nascimento, colocamos Natália em diálogo com Natália, devolvendo a sua voz ao palco a que por direito pertence. Através de uma conversa intergeracional, as duas protagonistas – que representarão a escritora ainda jovem e a poucos anos da morte – irão contracenar e esgrimir argumentos que lançarão o seu olhar profético sobre o presente. O resultado será um projeto multidisciplinar que une texto, representação, encenação, dança, documentário e estética audiovisual.

Quando na rádio noticiaram a morte de Natália Correia, um motorista de táxi lisboeta, pertencente a uma qualquer seita, lamentou que a poetisa não se tivesse convertido, porque mereceria ser salva; a mais de cinco mil quilómetros, o New York Times fazia imprimir um pequeno obituário, assinalando o desaparecimento da conhecida escritora portuguesa.

A capacidade de tocar universos diametralmente opostos – o erudito e o popular, a razão e o oculto, a ingenuidade e o conhecimento, o sacerdócio e o erotismo, o logos e o pathos – era um dos poderes mágicos de Natália e devia-se, em parte, ao dom de militar a vida. Ironicamente, quem a chorou chorou-a enquanto poeta, mesmo que não conhecesse a sua obra; muito diferente seria chorá-la enquanto versejadora ou autora.

“Natália em diálogo com Natália – Por vezes fêmea, por vezes monja” resulta de seis anos de estudo por parte da sua biógrafa (“O Dever de Deslumbrar”, Filipa Martins, Editora Contraponto, 2O23). Da consulta do arquivo pessoal da escritora com milhares de cartas e textos inéditos, da leitura de mais de 2OO textos de imprensa escritos ao longo de cinco décadas, do estudo da sua obra – incluindo uma prolífica obra dramatúrgica -, da análise das suas intervenções em debates parlamentares, surge um diálogo dramático que é, sobretudo, Natália Correia na primeira pessoa em conversa com as suas contradições e as contradições do presente e do futuro. Esta cosedura de testemunhos, entrevistas e escritos irá lançar um olhar oracular sobre os mais diferentes temas como o papel da mulher, a representatividade, a cultura, o aborto, Portugal ou a morte. As atrizes Teresa Tavares e Ana Nave, sob a direção de Ana Rocha de Sousa, irão simbolizar a evolução do pensamento de uma das maiores pensadoras do século XX europeu ao longo dos anos, interpelando-nos a entender o nosso próprio presente através do seu olhar profético.

Com acompanhamento musical feito pela tradicional guitarra portuguesa de Marta Pereira da Costa e a modernidade de Surma (Débora Umbelino) – uma continuidade do espírito muito antigo e muito futurista da escritora – este espetáculo visa não só celebrar esta poetisa, ensaísta, dramaturga, dando-a a conhecer às novas gerações, como fá-lo através da multidisciplinaridade (ela que também era multidisciplinar), a transversalidade, a abertura a novos modos considerando os também já existentes, o antes experimentado e conhecido, representando a busca e o encontro de um presente e de um futuro. A imagem (vídeo) e o movimento (dança), estarão presentes num diálogo dinâmico com as atrizes em cena. Uma provocação poética pluridisciplinar que integrará momentos de expressão de estados de alma como visão da encenação. Um olhar numa ‘leitura’ inesperada sobre a autora e mulher nos dias de hoje.

Será naturalmente um espaço de exaltação de uma mulher carismática e incontornável do nosso panorama literário, mas transportará também para o palco as mulheres de hoje que se identificam e se unem num trabalho que não se limita a uma exposição do que já foi, mas sim a um sublinhar de como o foi, ainda é, e com impacto no que está para ser.

Somos todas e todos resultado de lutas anteriores, de vozes que se fizeram ouvir. As correntes criadas por quem partiu são continuadas por quem está e assistidas por quem ainda fica. Existe assim em nós uma extensão de Natália em diferentes níveis e modos. Sendo proposto ao longo deste processo sermos nós na nossa função, não apenas e exclusivamente a voz de Natália. Num eco curioso de jogo temporal, Natália conversa com Natália e nós conversamos entre nós sobre e com Natália. No passado e no presente. O nosso e o dela. Curiosamente frente a frente.

Natália foi a pensadora que melhor encarnou o arquétipo do poeta profeta, na conceção clássica que venera Apolo como o deus da poesia e da profecia. O verbo oracular que lançou sobre o seu tempo tornou-a descodificadora da contemporaneidade, mesmo quando errava ou se contradizia. Durante a ditadura, viu seis títulos apreendidos pela PIDE. Só na década de sessenta, dos oito livros publicados pela autora, cinco foram alvo de censura pela polícia do Estado.

Condenada em tribunal plenário por pornografia, apoiou todos os candidatos da oposição (de Norton de Matos a Humberto Delgado) e foi apelidada de cripto-comunista pela PIDE. Já no pós-25 de Abril, empenhou-se numa forte campanha antigonçalvista, contra aqueles que chamou fascistas de esquerda. Com a democracia estabelecida, foi alvo de processos disciplinares movidos pela direção do único partido pelo qual militou. E, quando Portugal assinou em festa a adesão à CEE, anteviu o amesquinhamento cultural que levaria ao reforço dos discursos de ódio e ao crescimento da extrema-direita. Nas entrelinhas, alertou os menos atentos: a poesia é o défice das nossas inibições. Viver poeticamente é viver as coisas em potência. É esta narrativa ínvia e contrastante que torna irresistível a sua descodificação.

Texto FILIPA MARTINS
Encenação e Realização ANA ROCHA DE SOUSA
Interpretação ANA JEZABEL, ANA NAVE E TERESA TAVARES
Interpretação LGP PATRÍCIA CARMO
Música MARTA PEREIRA DA COSTA E SURMA
Cenografia e Figurinos DANIELA CARDANTE
Desenho de Luz SARA GARRINHAS
Produção TEATRO DO VÃO

FILIPA MARTINS é escritora, argumentista e jornalista, biógrafa de Natália Correia (“O Dever de Deslumbrar”, Contraponto, 2O23). Nasceu em Lisboa, em 1983, e colaborou, enquanto jornalista e cronista, em publicações como o DN, Notícias Magazine, Evasões, Revista LER e Jornal i. Recebeu o Prémio Literário Manuel Boaventura com “Na Memória dos Rouxinóis”, o seu quarto romance, publicado pela Quetzal. Recebeu, ainda, o Prémio Revelação, na categoria de Ficção, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, com “Elogio do Passeio Público” (Editora Guimarães, 2OO8), e o Prémio Jovens Criadores com “Esteira”. Publicou ainda os romances “Quanta Terra” (Editora Guimarães, 2OO9) e “Mustang Branco” (Quetzal, 2O14). É coautora da coletânea de contos “Mães que tudo” (Companhia das Letras, 2O19). Recebeu ainda uma menção honrosa com o texto “Cunhar Amor” na 2ª Edição do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, pela Companhia Cepa Torta. Nos últimos seis anos, dedicou-se a estudar a vida e a obra de Natália Correia. Desta investigação resultou uma série de televisão para a RTP – “Três Mulheres” – da qual é coargumentista, nomeada para os Prémios Sophia 2O19, pela Academia Portuguesa de Cinema, para o Prix Europa, Prémios Platino 2O19 e Prémios Autores 2O19 pela SPA. É ainda coautora, com Joaquim Vieira, do documentário “Natália Correia – A insubmissa”, exibido também no canal público de televisão. É argumentista da série televisiva “DOCE” (RTP) e da longa-metragem “Bem Bom”, candidata, na categoria de argumento, aos Prémios Sophia 2O22. Adaptou para ficção (RTP2) a vida da pintora Maluda e do prémio Nobel Egas Moniz e foi candidata aos Globos de Ouro pela autoria do telefilme “Na Porta ao Lado – Amor”, escrito em parceria com a APAV, de combate à violência doméstica. Manteve, em coautoria, um programa semanal na Rádio Renascença dedicado à promoção do livro, intitulado “A Biblioteca de”, e foi especialista do Plano Nacional de Leitura para a área de ficção.

ANA ROCHA DE SOUSA é realizadora, diretora artística e artista plástica. Nasceu em Lisboa. Trabalha pelo mundo. Viveu e estudou em Londres, onde fez o mestrado em Cinema na London Film School. Em Portugal, foi atriz profissional ao longo de 12 anos. Começou de forma amadora aos 14 anos quando entrou no grupo de teatro gerido por António Feio, de onde surgiu anos mais tarde o Grupo Teatral Pano de Ferro, do qual foi membro fundador. Licenciou-se em Pintura na Universidade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu os primórdios da sua expressão artística em fotografia, vídeo e instalações de arte. Estreia-se em 2O2O no Festival de Cinema de Veneza como realizadora, com “LISTEN”, a sua primeira longa-metragem de ficção, onde o filme vence 6 prémios, incluindo o Leão do futuro, o Leão prémio especial do Júri e ainda o Melhor Filme Internacional atribuído pela crítica independente (Bisato D’Oro Melhor Filme). “LISTEN” chegou a vencer mais de 3O prémios em competições Nacionais e Internacionais. Estreou em salas de cinema, plataformas digitais e festivais de prestígio no mundo. Como realizadora, começou por dirigir curtas de ficção e documentário, vídeos de música para artistas nacionais e criou cenários para palco, set designs para filmes e desenhou e executou projetos de decoração de interiores. No teatro, no cinema e nas belas artes, o foco do seu trabalho é a conexão entre o real e a ficção, indo ao encontro do impacto de transformação social pela defesa dos direitos humanos, da igualdade e da inclusão. Define-se por natureza com uma visão multidisciplinar, dada a sua formação e experiência nas diversas formas de expressão artística. Recentemente criou a instalação “TU” para a Exposição Amor Veneris onde levanta questões sobre abuso, tradição cultural e o nosso papel enquanto cidadãos, ativos ou passivos perante questões cruciais de consentimento.

TERESA TAVARES estreou-se em 2OOO como atriz e, desde então, trabalha em televisão, cinema e teatro. Frequentou a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e completou a sua formação na LAMDA, em Londres, e no Lee Strasberg Institute, em Los Angeles (como bolseira da Gulbenkian). Em cinema foi dirigida por João Canijo, Fernando Lopes, Tiago R. Santos, Werner Schroeter, Patricia Plattner, Ana Rocha de Sousa, Jason Buttler, Mark Heller, Sofia Bost, entre outros, em produções portuguesas e coproduções com diversos países. É presença assídua na televisão portuguesa, tendo participado em inúmeras séries, novelas e telefilmes ao longo dos anos. Entre os seus últimos trabalhos em televisão destacam-se as séries “Até que a Vida nos Separe”, realizada por Manuel Pureza (Netflix / RTP) e “Cavalos de Corrida”, realizada por André Santos e Marco Leão, que a protagoniza (RTP). Em teatro destaca-se o seu trabalho com Daniel Gorjão (“Tudo Sobre a Minha Mãe”; “Vita & Virginia”; “Quarteto”; “Júlia”; “Radiografia de um Nevoeiro Imperturbável”; “um dia dancei SÓ dancei um dia”), Nuno M. Cardoso (“Emília Galotti”; “Maria Stuart”; “Nothing Hurts”), João Canijo (“Persona”), Luís Moreira (“Sonho de uma noite de Verão”), Isabel Medina (“Tio Vânia”), Rita Lello (“Ensaio no Feminino”; “Com o amor não se brinca”), Celso Cleto (“Sylvia Plath”), entre outros. Em 2O12 foi um dos membros fundadores do Teatro do Vão.

O TEATRO DO VÃO, fundado em 2O12 por Daniel Gorjão, Teresa Tavares e Sara Garrinhas, tem desenvolvido a sua atividade em torno da ideia de experimentação e liberdade. Tem como principal objetivo a promoção da cultura e da criatividade, entendidas como veículos para o desenvolvimento do ser humano e das sociedades. Através da criação, organização e promoção de objetos artísticos pluridisciplinares, que englobam disciplinas como o teatro, a dança e as artes visuais, pretende fomentar o diálogo, a reflexão e a difusão de novas linguagens, em Portugal e no estrangeiro. A atividade do Teatro do Vão não é programática: não segue uma lógica em termos de repertório, em termos temáticos ou formais. Os espetáculos partem de um desejo em trabalhar um determinado assunto, uma determinada estética ou um determinado texto. As criações são muitas vezes a partir de materiais exteriores ao teatro – poesia, cartas, músicas, diários – e partindo desses materiais procurar o seu espaço de ação. Já criou/produziu espetáculos de naturezas muito diferentes: com atores profissionais, com pessoas da comunidade, em teatros reconhecidos, em lugares abandonados, em caves, com mais ou menos meios de produção, mas sempre movidos pelo desejo de criar objetos singulares, novos e dialogantes com o mundo em que vivemos. Se no início começou por só fazer espetáculos do criador e diretor artístico Daniel Gorjão, atualmente abre a estrutura a outros artistas. Entende que é mais uma forma de experimentação, não ser composto apenas por artistas que fazem, mas também artistas que estão em diálogo e que oferecem condições para que outros possam fazer.

 

RESIDÊNCIA

2O23 | SET 26 a OUT 21

LOCAL A DEFINIR

Residência artística não aberta ao público

ESTREIA : a definir

[TEATRO]

 

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