Um Solo para a Sociedade

UM SOLO PARA A SOCIEDADE

de São Castro e António M Cabrita

integrado no Ciclo Território Dança

A partir do monólogo “O Contrabaixo”, de Patrick Süskind, São Castro e António M Cabrita aprofundam a reflexão sobre como as pessoas ocupam um território comum, abordando problemáticas que norteiam a condição humana; ampliando o gesto como movimento elaborado e exteriorizado dessa reflexão. O confronto do eu e dos outros, do barulho e do silêncio em som visível no corpo. Um solo diante da sociedade, o público. Um público que observa o indivíduo, um intérprete que observa a sociedade.

UM ENTRE DEBAIXO DA ESCUTA
por Catarina Câmara*

“A literatura sempre foi e continuará a ser chão que dá dança.
Um recente exemplar é “Um Solo para a Sociedade”, a última criação dos coreógrafos António M Cabrita e São Castro e a primeira a ser concebida enquanto diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro, ao abrigo da cidade de Viseu e do seu padroeiro artístico, o Teatro Viriato. O irresistível canto da literatura aconteceu primeiro em “Play False” (2014), obra desenvolvida a partir do universo shakesperiano (prémio “Autores” da Sociedade Portuguesa de Autores para “Melhor Coreografia” em 2015). Três anos e três peças depois (“Tábua Rasa”, “Rule of Thirds” e “Turbulência”), os coreógrafos voltam ao texto, desta vez, com “O Contrabaixo”, de Patrick Süskind, uma obra de 1981, concebida como peça radiofónica e posteriormente adaptada para teatro. Trata-se de um monólogo com lombada fina e espessura existencial, na linha de outras obras de Süskind, como “A Pomba” ou “O Perfume”. Ao longo da peça, o narrador e protagonista, um músico de Orquestra Nacional Alemã, debate-se com eternas questões como a liberdade e os seus limites, o sentido de dever ser e a procura de um sentido para o ser. O que se pretende explorar, é, nas palavras de António M Cabrita e São Castro: “a necessidade intrínseca ao ser humano de se afirmar como elemento importante dentro de uma sociedade (…) O indivíduo, a identidade e a sua posição hierárquica no grupo, num território (…) passando pelas problemáticas que norteiam a condição humana. O amor, a liberdade, a solidão.” O eixo central do livro que é também o de “Um Solo para a Sociedade” é a relação atormentada do músico com o seu contrabaixo e as diferentes perspetivas que vai assumindo perante o instrumento, num exercício projetivo da sua própria condição. Sentimentos de exaltação, desprezo, separação e aniquilação são sintomas de um desejo de afirmação individual. É a metáfora da grande orquestra social, da colmeia humana à qual nos sentimos irremediavelmente presos e da qual, irremediavelmente, nos sonhamos livres. Desengane-se, porém, quem vier à procura, neste solo íntimo e preciosista, de uma lógica narrativa com pistas para o texto, ou de uma personagem decalcada da história, animada pelo gesto excessivo e caricatural. Aqui nem sequer encontramos a defesa de um específico estado físico ou anímico para reforçar a ideia de um corpo alienado. O bailarino, Miguel Santos, finta com graça e virtuosismo a sedução de uma representação modelada por fantasias psíquicas, prontas a serem interpretadas pela velocidade do espectador. Na verdade, o intérprete está aquém e além da personagem original. Não representa uma entidade que ora manipula, ora é manipulado, que ora instrumentaliza, ora é instrumentalizado. Em “Um Solo para Sociedade”, o protagonista não é um ‘ente’ mas um ‘entre’, através do qual a existência acontece. Ele é aquilo que vê, cheira, toca e ouve. Ele é os seus dedos a tocar as cordas do contrabaixo e é as cordas do contrabaixo a tocar os seus dedos. As formas destiladas resultam de um imprevisível fluxo de trocas e fazem despertar a ferida existencial: tudo é indeterminado e finito e só a morte nos completa. Num quarto à prova de som, (o apartamento do músico ou a sala deste teatro), encontra-se o bailarino de “Um Solo para a Sociedade”. O gesto é espontâneo e comprometido. Ele escuta. Como um inseto, as extremidades do bailarino, acusam tudo o que é silencioso e invisível. Traduzem para seg- mentos de movimento, as cores e vibrações do som, as rotas do ar, a segunda sinfonia de Brahms, as combinações moleculares de uma cerveja. A hipersensibilidade das extremidades converte-se no radar de uma linguagem microcósmica que a olho nu nos faz imaginar uma dança. Somos bafejados por um corpo que se fratura, anula e reconfigura, no pleno exercício da sua funcionalidade criativa, na luta pela sua existência. O impulso não é desencadeado por uma ação mecânica instintiva, mas por uma consciência subversiva, em permanente desformatação. Tal como o contrabaixo que tem o poder de magnetizar tudo o que está no polo oposto, também o movimento se transcende nessa evidência de que somos o outro, somos o lugar que escolhemos amar ou odiar. Com um golpe suspenso, o bailarino observa-se no olhar do público e o público revê-se no olhar do bailarino. “(…) nesta atração do aqui e ali, do elevado e profundo, é aí que tudo se conjuga, tudo o que produz sentido em música, é aí que nasce o sentido musical e a vida, sim a vida, pura e simplesmente.” E a coreografia desprende-se como um perfume, com a qualidade do que é extraordinário e acidental. Como se a vida nos regalasse um milagre.”

* Catarina Câmara trabalha como bailarina e docente e teve já algumas aventuras coreográficas, sempre com um pé na dança e outro no teatro. Mais recentemente tem-se dedicado ao estudo e cruzamento das práticas artísticas e psicoterapêuticas de modo a encurtar os caminhos entre a arte, a educação e a saúde.

Conceito SÃO CASTRO
Coreografia, Desenho de Luz e Figurino SÃO CASTRO E ANTÓNIO M CABRITA
Música original SÃO CASTRO
Música adicional DANIEL BJARNASON, HILDUR GUDNADÓTTIR, JEAN SIBELIUS e JEAN-BAPTISTE LULLY
Interpretação MIGUEL SANTOS
Agradecimentos CONSERVATÓRIO REGIONAL DE MÚSICA DR. AZEREDO PERDIGÃO – VISEU
Produção COMPANHIA PAULO RIBEIRO
Coprodução TEATRO VIRIATO
Fotografia de capa ANTÓNIO M CABRITA E SÃO CASTRO
A Companhia Paulo Ribeiro é uma estrutura financiada por REPÚBLICA PORTUGUESA – CULTURA / DIREÇÃO-GERAL DAS ARTES

 

António M Cabrita (n. 1982) Licenciado pela Escola Superior de Dança, do Instituto Politécnico de Lisboa (2008), António M Cabrita fez também formação na Escola de Dança do Conservatório Nacional (2000) e estudou Dança no Joffrey Ballet School, Nova Iorque (2001). Paralelamente à sua formação em Dança, fez o curso de Cinema da New York Film Academy (2001) e o curso de Criatividade Publicitária da Restart, Lisboa. Tem desenvolvido trabalho como bailarino, coreógrafo, vídeo-designer e sonoplasta. Como bailarino trabalhou com coreógrafos como Rui Horta, Né Barros, Silke Z., António Tavares, Tânia Carvalho, Ana Rita Barata, Pedro Ramos, Felix Lozano, Paulo Ribeiro e Luís Marrafa, entre outros. Participou em projetos e festivais tais como o projeto “Colina”, “Repérages”, “Festival Temps D’Image”, “Festival In Shadow”, “New Age, New Time” (Teatro Viriato, Viseu). Entre 2007 e 2015 foi artista residente na companhia alemã SilkeZ./Resistdance. António M Cabrita iniciou-se na coreografia em 2009, com a criação do projeto “To Fail”. Em 2014, foi nomeado como coautor da peça “Abstand” do coreógrafo Luís Marrafa para o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria Melhor Coreografia. Entre 2011 e 2016, desenvolveu em colaboração com a coreógrafa e bailarina São Castro o projeto “|acsc|”. Em 2015, os dois coreógrafos foram distinguidos com o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores na categoria Melhor Coreografia com a peça “Play False”, tendo sido nomeados na mesma categoria, em 2016 e 2017 com as peças “Tábua Rasa e Turbulência”, ambas em cocriação com Henriett Ventura e Xavier Carmo, numa coprodução entre a Companhia Nacional de Bailado e a Vo’Arte. A peça intitulada “Rule of Thirds”, estreada em abril 2016, foi considerada pelo jornal Público como um dos melhores espetáculos de dança desse ano. Foi distinguido pelo Instituto Politécnico de Lisboa com a Medalha de Prata de Valor e Distinção (2016). Em 2017, a convite de Luísa Taveira, António M Cabrita e São Castro criaram “Dido e Eneias” para a Companhia Nacional de Bailado. Frequentemente, leciona aulas e workshops de dança contemporânea. António M Cabrita e São Castro são, atualmente, diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro. A primeira peça que criaram enquanto diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro, “Um Solo para a Sociedade” estreou em junho de 2017. Em 2018, estrearam “Box 2.0 – Instalação Holográfica”. E, em 2019, depois da colaboração em “Todos, Alguém, Qualquer Um, Ninguém”, de Luiz Antunes, estrearam “LAST”, peça para 5 bailarinos com música ao vivo pelo Quarteto de Cordas de Matosinhos, tendo sido também convidados, no mesmo ano, pelo Théâtre de la Mezzanine (França) a assumir a direção coreográfica da ópera “Orphée et Eurydice” com encenação de Dennis Chabroullet. Em novembro de 2020 estrearam, no Teatro Viriato, uma nova criação, intitulada “Sinais de Pausa”, um dueto, coreografado pelos próprios, que marca o regresso dos coreógrafos/bailarinos São Castro e António M Cabrita à interpretação.

São Castro (n. 1976) Iniciou a sua formação em dança no Balleteatro Escola Profissional de Dança e de Teatro do Porto (1995-1998) e em 2002 concluiu a sua licenciatura em Dança pela Escola Superior de Dança, do Instituto Politécnico de Lisboa. O seu percurso na interpretação iniciou-se no Balleteatro Companhia, entre 1997 e 1999; tendo passado, posteriormente, pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (entre 2001 e 2004), pelo Ballet Gulbenkian (2004/2005) e pela Companhia Instável (2012). Enquanto intérprete trabalhou com coreógrafos como Né Barros, Isabel Barros, Rui Lopes Graça, Benvindo Fonseca, Sofia Silva, Vasco Wellenkamp, Paulo Ribeiro, Hofesh Shechter, Olga Roriz, Clara Andermatt, André Mesquita, Tânia Carvalho, Luís Marrafa, entre outros. Em 2009, iniciou-se na coreografia com a criação do solo “aTempo” e, nos anos seguintes, coreografou para a Companhia de Dança do Algarve; para a Escola de Dança do Conservatório Nacional, com apresentação no Inter- national Youth Festival Expression (Grécia); Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo; Projecto Quorum (2015) e Companhia de Dança de Almada (2016). Entre 2011 e 2016, desenvolveu em colaboração com o coreógrafo e bailarino António M Cabrita o projeto “|acsc|”. Em 2015, os dois coreógrafos foram distinguidos com o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores na categoria Melhor Coreografia com a peça “Play False”, tendo sido nomeados na mesma categoria, em 2016 e 2017 com as peças “Tábua Rasa” e “Turbulência”, ambas em cocriação com Henriett Ventura e Xavier Carmo, numa coprodução entre a Companhia Nacional de Bailado e a Vo’Arte. A peça intitulada “Rule of Thirds”, estreada em abril de 2016, foi considerada pelo jornal Público como um dos melhores espetáculos de Dança desse ano. Foi distinguida pelo Instituto Politécnico de Lisboa com a Medalha de Prata de Valor e Distinção (2016). Em 2017, a convite de Luísa Taveira, São Castro e António M Cabrita criaram “Dido e Eneias” para a Companhia Nacional de Bailado. Foi recentemente convidada pelo Município de São João da Madeira, no âmbito comemorativo do Dia Mundial da Dança, para fazer a curadoria do evento “A cidade dança”. São Castro e António M Cabrita são, atualmente, diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro. A primeira peça que criaram enquanto diretores artísticos da Companhia Paulo Ribeiro, “Um Solo para a Sociedade” estreou em junho de 2017. Em 2018, estrearam “Box 2.0 – Instalação Holográfica”. E, em 2019, depois da colaboração em “Todos, Alguém, Qualquer Um, Ninguém”, de Luiz Antunes, estrearam “LAST”, peça para 5 bailarinos com música ao vivo pelo Quarteto de Cordas de Matosinhos, tendo sido também convidados no mesmo ano, pelo Théâtre de la Mezzanine (França) a assumir a direção coreográfica da ópera “Orphée et Eurydice” com encenação de Dennis Chabroullet. Em novembro de 2020 estrearam, no Teatro Viriato, uma nova criação, intitulada “Sinais de Pausa”, um dueto, coreografado pelos próprios, que marca o regresso dos coreógrafos/bailarinos São Castro e António M Cabrita à interpretação.

Miguel Santos (n. 1993) começou a sua formação em Dança em Faro, em 1999, na área das Danças de Salão. Em 2011, profissionalizou-se pela IDTA (International Dance Teachers Association). Paralelamente, entre 2007 e 2011, praticou Dança Contemporânea, Clássica e Carácter na CDA (Companhia de Dança do Algarve). Em 2014, terminou a sua licenciatura em Dança pela Escola Superior de Dança, no Instituto Politécnico de Lisboa. Participou ainda, em 2016, no curso intensivo de Verão da NDT (Nederlands Dans Theater) e Gaga Intensive Summer. Na área das Danças de Salão, trabalhou com os professores Sofia Henriques, Filipe Neves, Emanuelle Soldi e Elisa Nasato, Bruno Tomás e Joana Santos, entre outros. Em 2008 foi finalista no programa televisivo “Dança Comigo – Concorrentes Juniores” e, em 2009, foi convidado para representar Portugal numa competição internacional em Hong Kong. Enquanto aluno na Escola Superior de Dança destaca os nomes de Pascale Mosselmans, de Barbara Griggi, de Amélia Bentes, de Vítor Garcia, de Margarida Bettencourt. Em 2013, ingressou na CaDA (Companhia de Dança de Almada), onde trabalhou em criações de Benvido Fonseca, Carla Jordão, Nuno Gomes, Ricardo Ambrozio, Daniela Andana, Bruno Duarte e São Castro. Destaca ainda a participação em digressões europeias (Polónia e Itália) e internacionais (Brasil e China). Participou ainda numa criação de Gonçalo Ferreira Lobato para a CDCE (Companhia de Dança Contemporânea de Évora), “Quid Iuris”, que estreou em 2013 no festival FIDANC – Festival Internacional de Dança Contemporânea de Évora. Em 2014 criou “Quase Mágico”, um solo para o festival de solos da Malaposta e em 2015 integrou o elenco da criação de João Fernandes, intitulada “Liberdade Provisória”, para o festival Metadança. No início de 2018 integrou o elenco de “Walking with Kylián . Never Stop Searching”, do coreógrafo Paulo Ribeiro para a Companhia Paulo Ribeiro; e colaborou com a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo como intérprete no programa Jovens Coreógrafos Portugueses.

Criada em 1995, a Companhia Paulo Ribeiro é uma companhia portuguesa de dança contemporânea, com um repertório próprio de peças, maioritariamente, criado por Paulo Ribeiro (tendo recebido vários prémios nacionais e internacionais); mas também por outros criadores convidados. Estrutura residente no Teatro Viriato desde 1998, é a partir daí que desenvolve a sua atividade de pesquisa, de criação, de produção, de difusão e de formação em dança contemporânea. Atualmente, é dirigida pelos bailarinos e coreógrafos São Castro e António M Cabrita. A par da implementação do projeto artístico do Teatro Viriato em 1998; em 2005, a Companhia Paulo Ribeiro foi também responsável pela criação da escola de dança Lugar Presente (Viseu) com Ensino Artístico especializado em dança. Com um repertório de mais de 30 produções, a Companhia Paulo Ribeiro é uma das mais reconhecidas companhias de dança contemporânea portuguesas. Além dos principais eixos de atividade, a Companhia Paulo Ribeiro tem ainda promovido a edição. Em 2005, foi lançado o livro “Corpo de Cordas”, da autoria de Cláudia Galhós, uma edição comemorativa dos 10 anos de existência da Companhia; e em 2015, foi a vez de “Uma Coisa Concreta”, um livro coordenado por Tiago Bartolomeu Costa, que reúne um conjunto de textos de Isabel Lucas, Luísa Roubaud, Maria de Assis, Mónica Guerreiro e Paula Varanda.

DANÇA

2021 | OUT 08 e 09

SEX e SÁB – 21H00

AUDITÓRIO

13€ [DESCONTOS APLICÁVEIS] | 36€ [ASSINATURA CICLO TERRITÓRIO DANÇA]

62 MINUTOS

M/6

A assinatura “Ciclo Território Dança” inclui bilhetes para os espetáculos:
– Autópsia
– Margem
– Um Solo para a sociedade
Choses sans ombre

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