Margem

MARGEM

de Nome Próprio

Margem tem como inspiração o romance de 1937 de Jorge Amado, “Capitães de Areia”, que retrata um grupo de crianças e adolescentes abandonados que vivem nas ruas de São Salvador da Baía, roubando para comer, e dormindo num trapiche – um armazém onde, como uma espécie de família, se protegem uns aos outros e sobrevivem a um dia de cada vez. 80 anos depois da publicação do livro, quisemos questionar quem são os novos capitães de areia, inspirando-nos na realidade social destas crianças, e conscientes de que nem sempre há finais felizes.

Quem são estas pessoas que são colocadas à margem, e quando é que essa marginalização começa? Na casa de partida da vida, temos todos as mesmas hipóteses ou alguns partem para a luta já em défice? Há formas de quebrar isso? Quais? A sério? De certeza? Será realmente admirável o mundo novo que conseguimos construir com todos os nossos ideais de igualdade para todos? Numa ideia de teatro documental, e em colaboração com Joana Craveiro, este projeto é alicerçado num trabalho junto de jovens que foram privados do ensino, da alimentação, de carinho, de um pai, de uma mãe, jovens que cometeram crimes, jovens que partiram em défice ou que se viram em défice por razões que muitas vezes lhes são alheias. Jovens e crianças que, não obstante, continuam a lutar pela sua liberdade, e, nalguns casos, para inverter o tabuleiro do jogo – o tal onde, lado a lado, na casa de partida, já éramos diferentes uns dos outros, como uma fatalidade.

DAS RAÍZES E DAS MARGENS

«Falava Brecht de margens e nós socorremo-nos dessa mesma expressão. Usamos “margem” como quem usa uma metáfora do que é estar-se não no centro dos acontecimentos, mas na periferia deles, da vida. Neste espetáculo partimos de um livro para ir para além do livro; partimos de um livro como quem parte de um mapa, um guia para o caminho. Fizemo-nos perguntas sobre o que pode significar hoje esse livro – outrora banido na tal “noite” de que Jorge Amado fala (nós, por aqui, também tivemos uma outra noite de 48 anos, sabemos do que ele fala). Fizemo-nos perguntas sobre todas as vezes em que nós próprios nos colocamos nas margens ou nos colocam, e se o estar-se na margem é algo que nos acontece, ou com que nascemos, ou em que nos tornamos. Falamos aqui, claro, da possibilidade ou não da transformação das circunstâncias em que nascemos ou daquelas em que nos encontramos. E nós acreditamos, ainda acreditamos, na possibilidade dessa transformação. E no questionar de certas hegemonias, e desse olhar tão eurocêntrico que nos define, enquanto europeus e “descobridores do mundo” e que é também aqui questionado. Vale a pena perguntar que mundo foi este que tão orgulhosamente criámos ou ajudámos a criar – desigual, acima de tudo – e o que fazer com todos esses legados de dor e abandono.
Margem trata de um encontro entre a linguagem coreográfica de Victor Hugo Pontes e de uma obra literária, que é também uma obra política; sobrepõe a isso encontros e entrevistas conduzidas com jovens institucionalizados e outros, no Instituto Profissional do Terço e no Centro de Educação e Desenvolvimento de Pina Manique – Casa Pia de Lisboa, numa tentativa de perceber universos de abandono e carência. Por fim, junta-lhe as memórias e experiências dos próprios intérpretes e do seu processo na construção deste espetáculo. E coloca-os face a uma banda sonora urbana, tribal, urgente, feroz por vezes, e que bebe de muitas raízes. Porque às margens dão muitas raízes – abandonadas, curvadas, secas (assim como muitas outras coisas que ninguém quer); porque das raízes e da falta delas se constroem tantas margens, tantos muros.»

Joana Craveiro

Direção VICTOR HUGO PONTES  
Texto JOANA CRAVEIRO
Cenografia F. RIBEIRO
Música MARCO CASTRO e IGOR DOMINGUES (Throes + The Shine) 
Direção técnica e desenho de luz WILMA MOUTINHO
Consultoria artística MADALENA ALFAIA
Interpretação ALEXANDRE TAVARES, DAVID S. COSTA, GONÇALO CABRAL (em substituição de André Cabral), HUGO FIDALGO, JOÃO NUNES MONTEIRO, JOSÉ SANTOS, MAGNUM SOARES, MARCO OLIVAL, MARCO TAVARES, NARA GONÇALVES, TIAGO FERREIRA (em substituição de Rui Pedro Silva) e VICENTE DE FREITAS MELO (em substituição de Vicente Campos)
Direção de Produção JOANA VENTURA
Produção Executiva MARIANA LOURENÇO
Parcerias CENTRO DE EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE PINA MANIQUE – CASA PIA DE LISBOA E INSTITUTO PROFISSIONAL DO TERÇO
Apoio à Residência CENTRO CULTURAL VILA FLOR
Co-produção NOME PRÓPRIO, CENTRO CULTURAL DE BELÉM – FÁBRICA DAS ARTES e TEATRO AVEIRENSE 
Créditos fotográficos JOSÉ CALDEIRA, BRUNO SIMÃO e JOANA MAGALHÃES

OPEN CALL

Estão abertas as candidaturas para jovens que tenham interesse em integrar este espetáculo. Procuramos 8 rapazes com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos, com destreza física. Os selecionados integrarão dois workshops em horário pós laboral, nos dias 3 e 4 de dezembro na Malaposta.

Candidaturas abertas através do email ccmalaposta@gmail.com. Obrigatório o envio de fotografia de corpo inteiro e altura.
Os selecionados serão contactados pela produção do espetáculo.
Boa sorte!

BIOGRAFIAS

VICTOR HUGO PONTES
Victor (Guimarães, 1978) é licenciado em Artes Plásticas – Pintura (FBAUP). Frequentou a Norwich School of Art & Design, em Inglaterra. Concluiu os cursos profissionais de Teatro do Balleteatro Escola Profissional e do Teatro Universitário do Porto, bem como o curso de Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança. Fez o curso de Encenação de Teatro na Fundação Calouste Gulbenkian, dirigido pela companhia inglesa Third Angel, e o curso do Projet Thierry Salmon – La Nouvelle École des Maîtres, dirigido por Pippo Delbono, na Bélgica e em Itália. Como criador, a sua carreira inicia-se em 2003, com “Puzzle”. Desde então, vem consolidando a sua marca coreográfica, tendo apresentado o seu trabalho por todo o país e internacionalmente. Mais recentemente, as peças “A Ballet Story” (2012) e “Margem” (2018) foram distinguidas, respetivamente, como Espetáculo de Dança do Ano (Público e Expresso) e Melhor Coreografia (Prémios SPA). Integrou o programa DanceWeb 2017, do Festival ImPulsTanz (Viena), como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Victor Hugo Pontes é, desde 2009, o diretor artístico da Nome Próprio – Associação Cultural.

NOME PRÓPRIO
A Nome Próprio é uma estrutura dedicada à produção e promoção de projetos artísticos, sobretudo de dança contemporânea e teatro. Fundada em 2000, por Victor Hugo Pontes, coreógrafo e encenador, que assegura a direção artística, as suas atividades intensificaram-se a partir de 2010. Tem desenvolvido projetos com inúmeros artistas e instituições, apresentados em todo o país, e também internacionalmente: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural de Belém, Teatro Nacional São João, Teatro Municipal do Porto, Centro Cultural Vila Flor, Maria Matos Teatro Municipal, Teatro Municipal São Luiz, Festival Panorama (Brasil), Festival de Dance de Cannes (França), Théâtre de Liège (Bélgica), Brandhaarden Festival (Países Baixos) e Chantiers d’Europe (França), entre outros. Desde a sua fundação, produziu espetáculos como “Fuga Sem Fim”, “A Ballet Story” (Melhor Espetáculo de Dança do Ano 2012, Público e Expresso), “Zoo”, “Fall”, “Coppia”, “Orlando”, “Se Alguma Vez Precisares da Minha Vida, Vem e Toma-a”, “Uníssono – Composição para cinco bailarinos”, “Nocturno”, “Margem” (Prémio Melhor Coreografia SPA, 2018) e “Drama” (2019). Para além da circulação de alguns destes projetos, a Nome Próprio tem em curso novas criações, com estreias em 2020 e 2021.
A Nome Próprio tem o apoio da República Portuguesa – Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes e é uma estrutura residente no Teatro Campo Alegre, no âmbito do programa Teatro em Campo Aberto.

 

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